sábado, 25 de fevereiro de 2012

o tempo e o vento da memória - homem e mito

                                                   Érico Veríssimo - escritor - (1905/1975) Cruz Alta -  RS - Brasil


                                               "O tempo e o vento" - trilogia - O continente - 1949 - Érico Veríssimo


memória persiste no tempo
chega batida pelo vento
de repente abrem-se portas
com o vento
fechadas há tanto tempo...

ilumina o sol conhecidos lugares
a luz traz mil recordações...
ações
fatos
gente
emoções assomam
retomam posto
trazem gosto de renovação...


Homem e Mito

Ontem me revi na Faculdade. Subia a rampa que levava ao segundo piso,  ainda sem a cobertura de acabamento. Esta só chegaria mais tarde, quando eu já fazia parte do passado daquele querido lugar.
Enquanto subia, contemplei em silêncio a cópia da estátua do Pensador de Rodin, majestosamente ocupando uma boa parte da altura do lugar.
Início da década de 70. Andava eu por lá. Cursava Letras agora, depois de concluir Pedagogia.
Sinto ainda o cheiro da massa usada na construção - aguada e varrida antes das aulas.
O prédio, ainda longe de ser concluído, fora precariamente ocupado, talvez numa tentativa do estimado e inesquecível Doutor Átila Taborda, diretor/fundador da Faculdade, de encolher os gastos com aluguel de salas no Colégio Espírito Santo ou para, quem sabe, já dar utilidade a todo o espaço que se apresentava.
Fôramos convidados, naquela noite, a assistir, não a uma palestra, porque a saúde não o permitia, mas a uma pequena conversa com o famoso escritor de "O Tempo e o Vento"!
Na hora anunciada ele chegou.
Entraram, um homem magro de pouca altura, vestido com calça de tecido e pulôver marrom ao lado uma senhora pequena, vestido de florezinhas miúdas e casaquinho.
Caminharam calmamente até a mesa, enquanto nos cumprimentavam.
Nós estávamos todos quase totalmente mudos! 
Érico foi logo anunciando que não se estenderia muito, porque a Mafalda não o permitiria. Sorriu, olhando para a esposa ao lado que lhe sorriu de volta.
Uma colega - tinha de ser uma mulher a arguir o escritor das mulheres fortes e corajosas -, perguntou ao criador do famoso Capitão Rodrigo Cambará em quem ele se inspirara para criar aquele marcante personagem de sua obra.
Ériso Veríssimo lhe respondeu que o Capitão possuía um pouco da alma de cada um dos gaúchos, homens e mulheres, que habitou e habita o Rio Grande do Sul.
Passou a falar-nos, então, de alguns detalhes sobre a obra que acabara de concluir, "Incidente em Antares", dizendo que nos revelaria "segredos" sobre a trama e seus personagens. Sorriu, contou-nos alguns detalhes pitorescos e engraçados, como a greve dos coveiros e a atazanação dos mortos aos vivos, conversou um pouco mais, pediu-nos algumas "sugestões" para seus próximos livros...
Nossos olhos estavam esbugalhados...
Nossos corações incredulamente pensavam viver um sonho...
Ao despedir-se carinhosamente da turma de embasbacados estudantes naquela noite, Érico Veríssimo nos tinha mostrado a face homem de profunda delicadeza, humor, simplicidade e elegância a estupefatos  e tímidos estudantes, petrificados diante do mito.
Homem e mito se fundiram indelevelmente na memória da jovem estudante de Letras, naquela noite, na sala de aula da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Bagé!

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